Presidente critica taxação imposta pelo governo americano e nega motivação puramente comercial por trás das novas tarifas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou neste domingo (26) um artigo de opinião no jornal norte-americano The Washington Post em que rebate a política tarifária adotada pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros. No texto, divulgado também em português nas redes sociais do presidente, Lula afirma que o Brasil não vai se curvar diante do que classificou como acusações infundadas por parte do governo americano.
O artigo chega em um momento delicado da relação comercial entre os dois países. No dia 15 de julho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) impôs uma sobretaxa de 25% sobre uma série de produtos brasileiros, entre eles ferro, aço, vestuário, calçados, açúcar, etanol, produtos farmacêuticos e maquinário agrícola. Dias depois, uma segunda rodada de tarifas, desta vez de 12,5%, também entrou em vigor sobre outros itens.
O que motivou a nova rodada de tarifas
Segundo o USTR, a justificativa oficial para a taxação está relacionada a práticas comerciais brasileiras que, segundo o órgão americano, prejudicariam agricultores, trabalhadores e exportadores dos Estados Unidos. Lula, no entanto, rebateu esse argumento no artigo, afirmando que as novas tarifas representam um erro estratégico que também vai prejudicar a própria economia americana, já que diversos setores industriais dos Estados Unidos dependem de insumos produzidos no Brasil.
O presidente citou ainda declarações anteriores do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que no início de junho retirou o Brasil da lista de países considerados amigáveis aos Estados Unidos na América Latina. Para Lula, esse tipo de posicionamento reforça o caráter ideológico da disputa comercial, e não apenas econômico.
Em um trecho do artigo, o presidente afirmou que “o Brasil não será derrotado com base em mentiras”, reforçando o tom de resistência diante da pressão americana. A frase resume o posicionamento adotado pelo governo brasileiro desde o início da escalada tarifária, iniciada ainda em abril de 2025.
Os números por trás da disputa comercial
Lula lembrou no texto que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos tem sido historicamente superavitária para os americanos, com um saldo positivo de US$ 428 bilhões ao longo de 15 anos consecutivos. Para o presidente, esse dado contradiz a alegação de que o Brasil estaria prejudicando o comércio bilateral.
Os efeitos práticos do tarifaço já aparecem nos números do comércio exterior. As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram para o menor patamar desde 1997, segundo dados citados na cobertura do caso. Na comparação entre o primeiro semestre de 2025 e o mesmo período de 2026, o comércio bilateral com os americanos recuou 12,8%, enquanto as trocas comerciais com a União Europeia cresceram 6,1% e com a China avançaram 15,9%.
Esses números sugerem que empresas brasileiras já começam a buscar novos parceiros comerciais diante da instabilidade nas relações com os Estados Unidos. Organizações que acompanham o comércio internacional apontam que, no médio prazo, essa reorganização de cadeias produtivas tende a se consolidar, à medida que fornecedores americanos perdem espaço para concorrentes de outros países.
O contexto eleitoral por trás da disputa
Além da dimensão econômica, Lula sugeriu no artigo que a nova rodada de tarifas também tem relação com a disputa eleitoral brasileira deste ano. Segundo o presidente, existiriam tentativas de usar a parceria comercial entre os dois países como instrumento de pressão política, o que ele classificou como inaceitável.
O episódio ocorre poucos dias depois de o governo brasileiro negar vistos de entrada a dois funcionários do Departamento de Estado americano, em uma missão que, segundo reportagem do próprio Washington Post, tinha como objetivo investigar o sistema eletrônico de votação do Brasil. Ainda que o artigo de Lula não mencione diretamente esse episódio, ele reforça o clima de tensão diplomática entre os dois países no momento em que o texto foi publicado.
O governo brasileiro ainda não anunciou novas medidas em resposta às tarifas americanas, mas a publicação do artigo indica que o Palácio do Planalto pretende manter uma postura de enfrentamento público diante da pressão comercial dos Estados Unidos. A repercussão do texto deve continuar nos próximos dias, tanto no Brasil quanto no ambiente político americano.
Fontes:
Agência Brasil | O Tempo | Gazeta do Povo