Vietnã prepara ofensiva diplomática com visitas à Rússia, França, Estados Unidos e Canadá

Sophie Bramley
Por Sophie Bramley 11 Min Read

Líder vietnamita To Lam inicia série de viagens internacionais em setembro para ampliar relações com grandes potências em meio às incertezas comerciais e à busca de Hanói por maior influência econômica e diplomática

O Vietnã prepara uma intensa agenda diplomática para setembro de 2026. O principal líder do país, To Lam, secretário-geral do Partido Comunista e presidente vietnamita, fará visitas à Rússia e à França entre os dias 7 e 12 de setembro, em uma movimentação destinada a aprofundar relações políticas e econômicas com dois parceiros estratégicos de Hanói.

A etapa europeia da agenda está oficialmente confirmada. To Lam fará uma visita de Estado à Rússia a convite do presidente Vladimir Putin e, posteriormente, uma visita oficial à França a convite do presidente Emmanuel Macron. Em Paris, o dirigente vietnamita também deverá participar de uma cúpula internacional dedicada ao setor espacial.

A movimentação, porém, deve ir além de Moscou e Paris. Segundo informações divulgadas pela Reuters nesta sexta-feira (4), To Lam também planeja viajar aos Estados Unidos, onde deverá participar da Assembleia Geral das Nações Unidas, e posteriormente ao Canadá. Essas etapas ainda fazem parte de uma agenda em preparação.

A sequência de viagens evidencia uma característica importante da política externa vietnamita: manter simultaneamente relações relevantes com países que frequentemente ocupam posições opostas nas principais disputas geopolíticas internacionais. Ao dialogar com Rússia, França, Estados Unidos e outros parceiros, Hanói procura ampliar suas alternativas econômicas sem ficar excessivamente dependente de uma única potência.

Rússia será primeira etapa da viagem

A visita de Estado à Rússia será a primeira grande etapa da agenda internacional de To Lam. A viagem ocorre por convite de Vladimir Putin e reforça uma relação construída ao longo de décadas entre Moscou e Hanói.

Vietnã e Rússia mantêm uma Parceria Estratégica Abrangente, nível elevado de relacionamento diplomático. A cooperação historicamente envolve áreas como energia, defesa, comércio, educação, ciência e tecnologia, embora as transformações geopolíticas dos últimos anos tenham obrigado os dois países a adaptar parte dessa relação.

A dimensão energética continua particularmente importante. Empresas russas possuem histórico de participação no setor energético vietnamita, enquanto Hanói procura garantir diferentes fontes de tecnologia, investimento e abastecimento para sustentar o crescimento de sua economia.

A visita também possui relevância política. Ao manter canais de alto nível com Moscou enquanto amplia simultaneamente as relações com países ocidentais, o Vietnã demonstra a estratégia de diversificação que caracteriza sua política externa.

França ganha espaço na estratégia vietnamita

Depois da Rússia, To Lam seguirá para a França, onde deverá encontrar Emmanuel Macron. A relação entre os dois países avançou nos últimos anos e ganhou novo impulso após a elevação dos vínculos bilaterais ao nível de Parceria Estratégica Abrangente em 2024.

A França ocupa uma posição relevante para o Vietnã por combinar influência política dentro da União Europeia com empresas interessadas em projetos de infraestrutura, transporte, energia e tecnologia no Sudeste Asiático.

Entre os setores acompanhados durante a aproximação estão projetos ferroviários e aeroportuários. O Vietnã possui grandes planos de modernização de infraestrutura, criando oportunidades para empresas estrangeiras que possam fornecer financiamento, equipamentos e tecnologia.

Durante sua passagem pela França, To Lam também participará de uma cúpula internacional sobre o setor espacial em Paris. A presença no encontro amplia o componente tecnológico da viagem e sinaliza o interesse vietnamita em setores considerados estratégicos para as próximas décadas.

Estados Unidos também entram na agenda

Depois das visitas oficialmente confirmadas à Rússia e à França, To Lam deverá viajar aos Estados Unidos. A expectativa é que participe da Assembleia Geral das Nações Unidas, cuja programação de alto nível ocorre em setembro, em Nova York.

A eventual etapa norte-americana possui peso especial porque os Estados Unidos se tornaram um dos parceiros econômicos mais importantes do Vietnã. O mercado americano é fundamental para as exportações vietnamitas, principalmente em setores industriais e manufatureiros.

Ao mesmo tempo, existem incertezas comerciais entre os dois países. Mudanças na política tarifária dos Estados Unidos podem afetar diretamente uma economia vietnamita fortemente dependente das exportações.

Por isso, uma visita aos EUA oferece ao governo vietnamita a oportunidade de manter diálogo político de alto nível justamente em um momento no qual questões comerciais possuem impacto direto sobre empresas, investimentos e cadeias produtivas instaladas no país asiático.

Canadá deve completar sequência de viagens

A agenda relatada pela Reuters também prevê uma viagem ao Canadá por volta de 24 de setembro, após a passagem pelos Estados Unidos. Essa etapa ainda integra os planos relatados por fontes e deve ser acompanhada até sua confirmação oficial.

O Canadá representa outro parceiro relevante na estratégia de diversificação econômica vietnamita. Os dois países participam do Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica (CPTPP), bloco comercial que reduz barreiras e facilita a integração econômica entre seus integrantes.

Para Hanói, ampliar comércio e investimentos com economias como a canadense ajuda a diminuir riscos decorrentes de uma dependência excessiva de poucos mercados externos.

Essa lógica ganhou importância diante das disputas comerciais entre grandes potências. Como importante plataforma industrial asiática, o Vietnã depende de acesso relativamente estável aos principais mercados internacionais para manter sua trajetória de crescimento.

Política externa busca equilíbrio entre grandes potências

A sequência Rússia-França-Estados Unidos-Canadá ilustra uma das características mais importantes da diplomacia vietnamita: a tentativa de manter relações produtivas com diferentes centros de poder simultaneamente.

O Vietnã possui fortes relações econômicas com a China, mantém vínculos históricos com a Rússia, ampliou significativamente sua parceria com os Estados Unidos e busca aprofundar relações com União Europeia, Japão, Coreia do Sul, Austrália e outros países.

Essa estratégia permite que Hanói preserve margem de negociação em um ambiente internacional marcado pela crescente competição entre Washington e Pequim.

Em vez de aderir integralmente a um único bloco geopolítico, o governo vietnamita procura construir diferentes parcerias de acordo com seus interesses econômicos, tecnológicos, militares e diplomáticos.

Economia ajuda a explicar ofensiva diplomática

A economia é um dos principais fatores por trás da intensa agenda internacional. O Vietnã tornou-se uma importante base industrial para empresas que buscam diversificar cadeias produtivas anteriormente concentradas na China.

Eletrônicos, equipamentos, roupas, calçados, máquinas e outros produtos representam parcelas importantes das exportações vietnamitas. Esse modelo, entretanto, deixa o país particularmente exposto às mudanças nas políticas comerciais das grandes economias.

Novas tarifas ou restrições comerciais podem atingir diretamente fábricas instaladas no Vietnã. Por isso, diversificar mercados e ampliar relações diplomáticas tornou-se também uma estratégia de proteção econômica.

As viagens de To Lam podem contribuir para atrair investimentos, facilitar projetos de infraestrutura e ampliar oportunidades comerciais em diferentes mercados.

Por que essa notícia importa?

A agenda mostra o crescimento da importância geopolítica do Vietnã. O país possui localização estratégica no Sudeste Asiático, mantém fronteira com a China e está próximo de algumas das principais rotas comerciais marítimas do planeta.

Além disso, tornou-se uma alternativa relevante dentro das estratégias internacionais de diversificação das cadeias industriais. Empresas globais vêm ampliando operações no país, principalmente em manufatura e tecnologia.

A capacidade vietnamita de manter relações simultaneamente com Rússia, China, Estados Unidos e Europa também transforma Hanói em um ator diplomático cada vez mais observado.

Nesse contexto, a sequência de viagens de To Lam não representa apenas uma agenda protocolar. Ela demonstra uma estratégia de ampliar opções econômicas e políticas em meio a um sistema internacional cada vez mais competitivo.

Contexto e próximos passos

A primeira etapa será realizada entre 7 e 12 de setembro, quando To Lam visitará Rússia e França. Essas duas viagens estão oficialmente confirmadas pelo Ministério das Relações Exteriores vietnamita.

Depois, a atenção estará voltada para a possível viagem aos Estados Unidos durante a Assembleia Geral da ONU. Até o momento, não há confirmação pública de uma reunião bilateral entre To Lam e o presidente americano Donald Trump.

Uma passagem pelo Canadá também está prevista posteriormente, segundo fontes ouvidas pela Reuters. Como essas etapas ainda dependem da consolidação da agenda, datas e encontros específicos poderão sofrer alterações.

O conjunto das viagens, porém, já deixa clara a estratégia de Hanói: intensificar o relacionamento com diferentes potências, ampliar oportunidades econômicas e preservar autonomia diplomática diante das crescentes disputas internacionais.

Fontes: Governo do Vietnã — comunicado oficial sobre as visitas à Rússia e França · Reuters — agenda internacional de To Lam em setembro · Ministério das Relações Exteriores do Vietnã — comunicado da viagem

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