Brasil fecha parceria bilionária com empresas chinesas para transferência de tecnologia em inteligência artificial

Sophie Bramley
Por Sophie Bramley 14 Min Read

Projeto com Huawei e iFlytek prevê cerca de R$ 1,276 bilhão em investimentos ao longo de cinco anos, infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro, transferência tecnológica e desenvolvimento de modelos de inteligência artificial voltados ao português e ao espanhol.

O governo brasileiro anunciou uma nova etapa de sua política de inteligência artificial com uma parceria envolvendo as empresas chinesas Huawei e iFlytek. O projeto prevê aproximadamente R$ 1,276 bilhão em investimentos durante cinco anos e terá como um de seus principais objetivos ampliar a infraestrutura de supercomputação disponível no Brasil. A iniciativa foi apresentada nesta quinta-feira, 20 de agosto, dentro de um pacote mais amplo destinado a fortalecer a capacidade nacional de desenvolvimento de inteligência artificial. (Reuters)

A infraestrutura será implementada no Rio de Janeiro e conduzida pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) em cooperação com as duas companhias chinesas. O projeto deverá ser utilizado principalmente para desenvolver grandes modelos de linguagem e aplicações de inteligência artificial de uso geral e voltadas para setores específicos. A previsão divulgada é que a operação tenha início em julho de 2027. (ConvergenciaDigital)

Um dos aspectos centrais do acordo é que ele não se limita à aquisição de equipamentos. A iniciativa prevê transferência de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, formação de profissionais e desenvolvimento de uma pilha de software soberana, estratégia que busca aumentar a capacidade brasileira de criar e operar sistemas avançados de IA em território nacional. (ConvergenciaDigital)

O anúncio também possui dimensão geopolítica. O pacote brasileiro distribui projetos importantes entre fornecedores ligados à China e aos Estados Unidos, em uma estratégia que procura evitar dependência excessiva de uma única potência tecnológica. Enquanto Huawei e iFlytek participam da infraestrutura do Rio de Janeiro, outro supercomputador, previsto para o Rio Grande do Norte, deverá utilizar tecnologia norte-americana. (Reuters)

Parceria terá Huawei e iFlytek no centro da infraestrutura

Huawei e iFlytek participarão do projeto de supercomputação que será instalado no Rio de Janeiro. Segundo as informações divulgadas sobre o programa, o investimento previsto chega a aproximadamente R$ 1,276 bilhão ao longo de cinco anos, colocando a iniciativa entre os principais projetos recentes de infraestrutura pública voltada à inteligência artificial no país. (Folha de S.Paulo)

A Huawei possui ampla atuação em infraestrutura de telecomunicações e computação, enquanto a iFlytek é especializada em tecnologias de inteligência artificial, incluindo processamento de linguagem e reconhecimento de voz. A combinação das capacidades das duas empresas deverá ser utilizada para estruturar uma plataforma computacional capaz de atender projetos brasileiros de pesquisa e desenvolvimento.

O objetivo declarado vai além de simplesmente disponibilizar poder computacional. A infraestrutura deverá apoiar a criação de modelos de IA voltados às necessidades brasileiras, permitindo que pesquisadores e instituições tenham maior capacidade para desenvolver sistemas sem depender exclusivamente de plataformas estrangeiras disponíveis comercialmente.

A participação chinesa ocorre ao mesmo tempo em que o Brasil busca diversificar suas relações tecnológicas internacionais. A Reuters informou que o pacote foi estruturado dividindo projetos relevantes entre companhias chinesas e fornecedores norte-americanos, refletindo a tentativa brasileira de manter autonomia estratégica nas relações com as duas maiores potências tecnológicas mundiais. (Reuters)

Brasil quer desenvolver inteligência artificial em português

Um dos objetivos mais relevantes da infraestrutura será desenvolver modelos de inteligência artificial adaptados ao português e ao espanhol. Atualmente, grande parte dos sistemas generativos mais avançados do mundo é desenvolvida por empresas estrangeiras e treinada com enormes conjuntos de dados nos quais o inglês possui presença predominante.

A criação de modelos desenvolvidos especificamente para os idiomas utilizados no Brasil e em outros países latino-americanos pode melhorar a compreensão de expressões regionais, documentos públicos, linguagem jurídica, conteúdos científicos e características culturais que nem sempre aparecem adequadamente representadas em grandes modelos internacionais. (Folha de S.Paulo)

A infraestrutura poderá ainda permitir a criação de aplicações especializadas para diferentes setores. Segundo a Reuters, o projeto brasileiro pretende desenvolver tanto grandes modelos de linguagem de uso geral quanto soluções destinadas a aplicações específicas, aproveitando a capacidade de supercomputação instalada no país. (Reuters)

Esse tipo de capacidade é considerado estratégico porque modelos avançados exigem grandes quantidades de processamento computacional durante treinamento e operação. Sem infraestrutura própria, universidades, empresas e instituições públicas podem permanecer dependentes da contratação de serviços estrangeiros, normalmente oferecidos por grandes provedores internacionais de computação em nuvem.

Transferência de tecnologia é uma das contrapartidas

A transferência tecnológica aparece como uma das principais contrapartidas da cooperação. Huawei e iFlytek deverão participar de atividades de pesquisa, desenvolvimento e formação de especialistas brasileiros, permitindo que parte do conhecimento relacionado à operação da infraestrutura seja incorporada por profissionais e instituições nacionais. (Bem Paraná)

O projeto também prevê capacitação profissional. As informações divulgadas apontam programas de formação de milhares de especialistas ao longo dos próximos anos, embora diferentes divulgações iniciais tenham apresentado números distintos sobre o total de profissionais diretamente associados às diferentes frentes do pacote. (Folha de S.Paulo)

A qualificação de especialistas é considerada uma etapa importante porque infraestrutura computacional, isoladamente, não garante independência tecnológica. Para desenvolver modelos próprios, o país também precisa ampliar sua disponibilidade de pesquisadores, engenheiros, cientistas de dados e profissionais capazes de trabalhar com sistemas avançados de inteligência artificial.

A expectativa é que a combinação de equipamentos, software, pesquisa e formação profissional permita construir competências que permaneçam no país. A estratégia busca transformar investimento em infraestrutura em capacidade tecnológica de longo prazo, em vez de limitar a iniciativa à contratação de máquinas e serviços externos.

Soberania tecnológica entra no centro da política de IA

O conceito de soberania tecnológica aparece como uma das principais justificativas do novo pacote. O Brasil utiliza atualmente tecnologias desenvolvidas principalmente nos Estados Unidos, China, Europa e outras regiões para sustentar serviços digitais, computação em nuvem, semicondutores e sistemas de inteligência artificial.

Essa dependência tornou-se uma preocupação estratégica à medida que a IA passou a ocupar espaço em setores como administração pública, saúde, educação, segurança digital, indústria, agricultura e pesquisa científica. A capacidade de processar dados e desenvolver modelos dentro do território nacional pode reduzir algumas dessas dependências, embora o Brasil ainda precise utilizar componentes e tecnologias estrangeiras.

O desafio é particularmente evidente na fabricação de semicondutores. Por isso, o pacote anunciado pelo governo também contempla investimentos em chips baseados na arquitetura aberta RISC-V, buscando aumentar gradualmente a capacidade nacional de desenvolver componentes e tecnologias relacionadas à computação avançada. (Folha de S.Paulo)

O Brasil também pretende desenvolver uma infraestrutura nacional de nuvem e ampliar mecanismos de transparência para sistemas algorítmicos. Essas diferentes iniciativas integram uma estratégia maior para construir uma cadeia nacional de inteligência artificial que envolva processamento, software, pesquisa, formação profissional, chips e governança.

Brasil tenta equilibrar relações tecnológicas entre China e Estados Unidos

A escolha das empresas participantes acrescenta uma dimensão importante de política externa ao projeto. Huawei e iFlytek são chinesas, enquanto outra parte do pacote brasileiro envolve infraestrutura que deverá utilizar componentes associados à indústria tecnológica dos Estados Unidos. A Reuters descreveu essa divisão como parte de uma estratégia brasileira para equilibrar relações com as duas potências. (Reuters)

No Rio Grande do Norte, o governo prevê investir cerca de R$ 1 bilhão em outro supercomputador, que deverá ser instalado no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba. A máquina poderá alcançar capacidade de processamento suficiente para colocá-la entre as principais infraestruturas mundiais dedicadas à inteligência artificial, segundo as projeções apresentadas pelo governo. (Mobile Time)

Já o projeto do Rio de Janeiro seguirá uma estratégia diferente, utilizando a cooperação com Huawei e iFlytek. Dessa forma, o Brasil não concentra toda a expansão de sua infraestrutura de IA em um único fornecedor ou país, reduzindo riscos relacionados a dependência tecnológica e mudanças geopolíticas.

A política também reforça uma postura brasileira de buscar cooperação com diferentes parceiros internacionais. Em vez de escolher exclusivamente um dos grandes polos tecnológicos, a estratégia apresentada procura combinar investimentos e parcerias internacionais com iniciativas destinadas ao desenvolvimento de capacidade nacional.

Projeto faz parte de investimento maior em inteligência artificial

A parceria de aproximadamente R$ 1,276 bilhão não é uma iniciativa isolada. Ela integra uma nova etapa do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que reúne diferentes projetos relacionados à infraestrutura computacional, formação profissional, desenvolvimento de semicondutores, serviços públicos digitais e pesquisa.

Somando algumas das principais iniciativas anunciadas nesta etapa, o governo apresentou investimentos superiores a R$ 2 bilhões em infraestrutura e desenvolvimento tecnológico. Entre os projetos estão o supercomputador do Rio Grande do Norte, a estrutura de supercomputação do Rio de Janeiro, investimentos em chips RISC-V e a criação de um centro dedicado à transparência algorítmica. (RTP)

Na Universidade Federal de Minas Gerais, por exemplo, está prevista a criação de um Centro Nacional de Transparência Algorítmica e IA Confiável, com investimento anunciado de R$ 50 milhões. A instituição deverá trabalhar com avaliação de sistemas, transparência e riscos relacionados à utilização de algoritmos. (Folha de S.Paulo)

O conjunto dessas iniciativas mostra que a política brasileira começa a tratar inteligência artificial não apenas como uma ferramenta utilizada por empresas de tecnologia, mas como uma área de infraestrutura estratégica. Computação, formação profissional, semicondutores, dados e governança passam a fazer parte de uma mesma discussão sobre a posição que o Brasil pretende ocupar na economia digital.

Por que a parceria com a China importa para o Brasil

A cooperação com Huawei e iFlytek pode ampliar significativamente a capacidade brasileira de desenvolver projetos avançados de IA. Universidades, centros de pesquisa e instituições públicas dependem de infraestrutura computacional para treinar modelos cada vez maiores, e o custo desses equipamentos se tornou uma das principais barreiras para países que desejam participar da corrida tecnológica.

Ao mesmo tempo, a participação de empresas chinesas em infraestrutura estratégica tende a manter o projeto no centro das discussões geopolíticas. Estados Unidos e China disputam liderança em semicondutores, inteligência artificial, computação em nuvem e telecomunicações, fazendo com que decisões sobre fornecedores tenham implicações que ultrapassam questões puramente técnicas.

Para o Brasil, o desafio será transformar a parceria em capacidade efetivamente nacional. Isso significa garantir que transferência tecnológica, formação profissional e pesquisa resultem em conhecimento que possa ser utilizado posteriormente por universidades, empresas brasileiras e órgãos públicos, reduzindo progressivamente a necessidade de importar soluções completas.

Se executada conforme anunciado, a infraestrutura prevista para o Rio de Janeiro poderá se tornar uma das peças centrais dessa estratégia. Com investimento bilionário, participação de Huawei e iFlytek e foco em modelos de inteligência artificial desenvolvidos para português e espanhol, o projeto coloca tecnologia, política industrial e relações internacionais dentro de uma mesma agenda de longo prazo. (ConvergenciaDigital)

Fontes

Reuters — Brazil launches AI supercomputer push, splits projects between Chinese, US firms

Folha de S.Paulo — Governo anuncia investimentos em IA, supercomputador e parceria com gigante chinesa

Convergência Digital — Rio de Janeiro ganha infraestrutura de supercomputação com Huawei e iFlytek

UOL Tilt — Governo anuncia computador de IA e parceria bilionária com a China

Compartilhe este artigo