Em setembro de 2025, o Ministério da Saúde atualizou pela primeira vez em mais de uma década sua diretriz oficial de rastreamento do câncer de mama, ampliando a faixa de convocação populacional de 50 a 69 anos para 50 a 74 anos. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues considera essa mudança um passo importante, mas destaca que ela também reacende uma pergunta que intriga médicos e pacientes há anos: existe, de fato, uma idade em que vale a pena parar de fazer mamografia?
A nova diretriz manteve algo que já vinha sendo discutido internacionalmente: acima dos 74 anos, a decisão deixa de ser automática e passa a depender de uma avaliação individualizada, considerando expectativa de vida e comorbidades de cada paciente. Entender por que essa linha de corte existe e o que a ciência já sabe sobre os riscos e benefícios do rastreamento em mulheres mais velhas ajuda a explicar uma das decisões mais delicadas da medicina preventiva atual.
O que mudou, exatamente, na diretriz brasileira sobre a faixa etária de rastreamento?
Até a atualização recente, o protocolo oficial do SUS recomendava mamografia bienal apenas entre 50 e 69 anos, deixando de fora tanto mulheres um pouco mais jovens quanto aquelas entre 70 e 74 anos, mesmo com risco ainda relevante para a doença. A nova diretriz passou a garantir acesso ao exame também entre 40 e 49 anos, por decisão compartilhada entre paciente e médico, e estendeu o rastreamento populacional bienal automático até os 74 anos, reconhecendo que quase 60% dos casos de câncer de mama no país se concentram justamente entre os 50 e os 74 anos de idade.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, essa ampliação corrige uma lacuna que fazia pouco sentido clínico: o risco de câncer de mama não desaparece magicamente aos 70 anos, e o envelhecimento populacional brasileiro, com expectativa de vida cada vez maior, tornava cada vez mais necessário incluir essa faixa etária no rastreamento sistemático.
Por que a decisão muda de automática para individualizada depois dos 74 anos?
A partir dessa idade, o cálculo de risco e benefício passa a depender fortemente de fatores que variam muito de pessoa para pessoa, como expectativa de vida remanescente e presença de outras doenças graves que possam competir com o câncer de mama como causa de morte. Diretrizes de diferentes países convergem nesse ponto: mulheres com déficit cognitivo avançado, comorbidades importantes ou expectativa de vida inferior a cinco anos costumam ser desaconselhadas a continuar o rastreamento de rotina, já que o tempo necessário para um câncer detectado precocemente resultar em benefício real de sobrevida pode ultrapassar o tempo de vida esperado.

Na avaliação do Dr. Vinicius Rodrigues, essa individualização não significa abandonar a paciente mais velha, mas reconhecer que a mesma lógica populacional aplicada a mulheres de 50 anos não se sustenta da mesma forma aos 80 ou 85 anos. Ele reforça que mulheres idosas com bom estado geral de saúde e expectativa de vida preservada continuam se beneficiando do rastreamento regular, desde que a decisão seja tomada em conjunto com o médico responsável.
O que a ciência já sabe sobre os riscos específicos de rastrear mulheres mais velhas?
O principal risco discutido nessa faixa etária é o sobrediagnóstico, ou seja, identificar tumores que, dado o tempo de vida restante da paciente, jamais chegariam a causar sintomas ou risco real à saúde. Revisões científicas mostram resultados conflitantes sobre o benefício do rastreamento acima dos 74 anos, com parte dos estudos sugerindo benefício reduzido justamente pela menor expectativa de vida desse grupo, e outra parte questionando a metodologia dessas conclusões por excluírem sistematicamente mulheres mais velhas dos grandes estudos clínicos originais.
Para o ex-secretário de Saúde, o Dr. Vinicius Rodrigues, essa lacuna de evidência é, em si, um problema a ser corrigido. Ele destaca que a maior parte dos estudos sobre rastreamento, tratamento cirúrgico e terapias sistêmicas para câncer de mama historicamente excluiu mulheres com mais de 70 anos, deixando a prática clínica atual apoiada em extrapolações de dados obtidos em populações mais jovens, e não em evidência direta sobre essa faixa etária específica.
Como uma mulher acima dos 74 anos deve conduzir essa decisão junto ao médico?
A recomendação prática, presente em diretrizes de diferentes sociedades médicas, é que a decisão seja tomada de forma compartilhada, com o médico apresentando de forma clara tanto os riscos quanto os benefícios esperados do rastreamento continuado, sempre respeitando a autonomia da paciente e, quando aplicável, de sua família. Mulheres com exame clínico mamário normal, boa capacidade cognitiva para compreender essa informação e expectativa de vida preservada geralmente se beneficiam de manter o rastreamento regular, enquanto aquelas com quadros clínicos mais frágeis podem legitimamente optar por interrompê-lo.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que essa conversa deveria acontecer de forma natural dentro do acompanhamento médico de rotina, e não apenas quando a paciente completa uma idade específica marcada no calendário. Para ele, o mais importante é que nenhuma mulher deixe de fazer o exame por simples desconhecimento de que ainda tem indicação, nem continue fazendo por rotina automática quando a própria situação clínica já apontaria para outra conduta.
A atualização da diretriz brasileira mostra que definir até que idade rastrear não é uma linha fixa gravada em pedra, mas um limite que se move conforme cresce o conhecimento científico e a expectativa de vida da população. Tratar essa decisão de forma individualizada, em vez de aplicar uma regra rígida para todas as mulheres acima de determinada idade, é hoje o consenso mais responsável disponível.
Para qualquer mulher se aproximando dessa faixa etária, a orientação mais segura continua sendo conversar abertamente com seu médico sobre expectativa de vida, comorbidades e preferências pessoais, transformando uma decisão que poderia parecer puramente estatística em um cuidado verdadeiramente individualizado.