Brasil nega visto a funcionários dos EUA que tentariam monitorar as urnas eletrônicas

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez 6 Min Read

Governo classifica pedido como instrumentalização política em meio a disputa eleitoral e tensão diplomática com Washington

O governo brasileiro confirmou neste sábado (25) a negativa de vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos que pretendiam visitar o país para tratar de temas ligados às eleições de outubro. Os vistos foram recusados na sexta-feira (24) pelo Ministério das Relações Exteriores, em uma decisão que reforça o clima de atrito entre Brasília e Washington nas últimas semanas.

Os funcionários barrados são Riley Barnes, subsecretário do Departamento de Estado para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, subsecretário adjunto da mesma pasta. Ambos são indicados políticos ligados à administração de Donald Trump e, segundo apuração do jornal The Washington Post, planejavam se reunir com autoridades eleitorais brasileiras para discutir a chamada liberdade de expressão relacionada ao pleito deste ano.

Por que o pedido de visto chamou atenção do governo

O que despertou desconfiança das autoridades brasileiras não foi apenas o conteúdo da agenda proposta pelos americanos, mas o momento em que o pedido chegou. A solicitação de visto veio logo depois de um evento em Brasília no qual políticos brasileiros se reuniram com diplomatas estrangeiros para levantar suspeitas sobre a segurança das urnas eletrônicas do país, sem apresentar qualquer prova concreta.

Diante desse contexto, o Itamaraty entendeu que a visita representaria uma tentativa de ingerência estrangeira em um processo eleitoral interno, o que levou à decisão de negar a entrada dos dois funcionários. Fontes ouvidas pelo Washington Post sob anonimato afirmaram que o objetivo da missão seria se encontrar com críticos do sistema eleitoral brasileiro, o que reforçou a leitura do governo de que se tratava de uma articulação política, e não de um diálogo técnico ou diplomático de rotina.

O episódio que reacendeu a desconfiança sobre as urnas

O estopim para toda essa sequência de eventos foi uma fala do pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, do PL, durante o encontro com diplomatas em Brasília, na segunda-feira (20). Na ocasião, ele afirmou, sem apresentar nenhuma evidência, que os equipamentos usados nas eleições brasileiras seriam fabricados pela empresa venezuelana Smartmatic.

A informação é falsa e foi desmentida publicamente pelo Tribunal Superior Eleitoral já na quarta-feira seguinte (22). Segundo o TSE, as urnas eletrônicas utilizadas no Brasil são projetadas por servidores e técnicos da própria Justiça Eleitoral, e sua produção ocorre sob coordenação direta do tribunal, por meio de empresas selecionadas em licitações públicas com ampla concorrência. O órgão destacou ainda que esse modelo de produção reforça a segurança e a transparência de todo o processo eleitoral brasileiro.

Apesar do desmentido oficial, a repercussão da fala de Flávio Bolsonaro ganhou força internacional, o que ajuda a explicar por que o pedido de visto dos funcionários americanos, feito poucos dias depois, foi recebido com tanta cautela pelo governo brasileiro.

Um episódio a mais na escalada de tensão entre Brasília e Washington

A tentativa frustrada de envio dos dois emissários não é um caso isolado. Ela ocorre em meio a uma sequência de atritos entre os governos brasileiro e americano, que nas últimas semanas trocaram farpas públicas, viram o comércio bilateral ser afetado por novas tarifas impostas pelos Estados Unidos e enfrentaram divergências em torno de processos judiciais que envolvem o ex-presidente Jair Bolsonaro e pessoas próximas a ele.

Enquanto aliados de Donald Trump vêm intensificando críticas públicas aos rumos da Justiça brasileira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem reiterado, em diferentes fóruns internacionais, o repúdio a qualquer tentativa externa de interferência na soberania nacional e no processo eleitoral do país. A negativa de vistos aos dois funcionários americanos se insere justamente nesse contexto de defesa da autonomia das instituições brasileiras diante de pressões externas.

Para especialistas em relações internacionais, esse tipo de episódio tende a se repetir ao longo do ano eleitoral, à medida que o debate sobre a integridade do sistema de votação brasileiro segue sendo usado como argumento político tanto no Brasil quanto no exterior. A expectativa é que o Itamaraty e o TSE continuem monitorando de perto qualquer nova tentativa de aproximação de autoridades estrangeiras com esse tipo de agenda.

O caso também deve reacender o debate público sobre o papel das urnas eletrônicas na democracia brasileira, tema que já é alvo de questionamentos recorrentes desde eleições anteriores, mas que ganha contornos ainda mais delicados em um momento de disputa presidencial e de relação turbulenta com o governo dos Estados Unidos.

Fontes:
Agência Brasil | Brasil de Fato | Gazeta do Povo

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